Algo me impulsionou abruptamente pra dentro daquela sala. Todos me olharam assustados, percebi que estavam muito abatidos, e transmitiam uma expressão triste. Pedi desculpas, mas ao invés de sair envergonhada por tal atitude, não consegui conter os meus instintos e me aproximei da cama, onde estava rodeada por três freiras e um padre. Observei um menino muito pálido, logo vi que ele estava morrendo. Todos ali estavam aguardando sua morte, já conformados, deixavam algumas lágrimas escapar de seus olhos.
Eu senti que devia fazer algo, eu não podia ficar ali e aguardar a morte daquela criança sem ao menos tentar ajudá-lo. Enquanto pensava em uma forma de tirá-lo dali, uma das freias me falou em um tom muito baixo, que ele nascera com o vírus da Aids, e que não conseguia comer nada há dias, e que estava com a imunidade muito baixa, mas o orfanato não tinha condições de cuidar dele, e que todas as tentativas de melhora não haviam sido suficientes, e que por isso ele chegou naquele estado.
Sai do quarto e corri até me distanciar o bastante pra não atormentá-los com o meu choro desesperador. Eu não podia deixar ele morrer, não tão cedo, voltei à sala e disse que ia levá-lo comigo, que eu cuidaria dele, cuidaria muito bem dele, e não deixaria ele de lado nunca, ficaria com ele e o faria muito feliz, daria uma família a ele e o levaria pra brincar com seus novos vizinhos. Levaria-o para à escola e depois planejaríamos o que fazer com o resto da tarde.
Mas já era tarde, Marvin acabara de morrer, com oito anos de idade, viveu sua vida trancado em um orfanato, rodeado por varias crianças e algumas freiras que as cuidavam.
Conforme Marvin crescia, sentia-se cada vez mais rejeitado por nunca ter sido adotado. Enquanto isso, eu desfrutava da minha independência e do meu próprio dinheiro, nunca pensei que podia ter feito alguém feliz, nem ter salvo a vida de uma criança tão frágil e necessitada. A morte de Marvin foi mais um fruto do meu egoísmo. Penso nisso até hoje, mas nunca mais pus os pés em um orfanato. Não quero nunca mais desejar sequer um filho. Não sou tão humana assim. Peço desculpas ao mundo, pela minha fraqueza interna. Tenho certeza de que não estou sozinha nessa, sei que não sou a unica pessoa que comete falhas tão terríveis assim, mas talvez eu faça parte da minoria que consegue refletir e ao menos ter a consciência de que podemos e devemos ajudar aos que precisam da gente, mas mesmo assim, não adotei ninguém até hoje. Faltou coragem.

3 comentários:
Não podemos corrigir nossas falhas antes de as reconhecer em nós, não há como corrigir o que não conhecemos....
A maioria confunde egoísmo com independência...
É assustador quando começamos a conhecer nossos tantos defeitos, eles começam a nos incomodar bastante...e por uma necessidade acabamos mudando...mas as vezes isso demora...
Um abraço!
É verdade, as vezes pensamos que estamos fazendo tudo de maneira correta, até pararmos pra ouvir as criticas alheias ou as nossas próprias reflexões mesmo. Mas o que importa é progredir, mudar sempre que necessário e sempre buscar melhorar!
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